Depois do tombo de segunda (26), quando o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, a quinta pior desde o Plano Real, a terça foi mais calma do que muita gente esperava. A bolsa caiu mais 0,51%, para 175.710 pontos, e o dólar devolveu parte da alta e fechou a R$ 5,35, segundo o Money Times. Ninguém aqui vai tentar adivinhar o próximo pregão. Dá para fazer uma coisa mais útil: olhar o que esta semana mudou nas contas de quem investe, atende paciente e paga folha.
Nesta edição, quatro assuntos que mexem com o patrimônio e com o orçamento de quem trabalha muito e tem pouco tempo para acompanhar o noticiário.
O mercado deixou de apostar num novo corte da Selic
Na sexta (23), 76% das opções de Copom negociadas na B3 apontavam mais um corte de 0,25 ponto na reunião de 4 de novembro. Na terça (27), essa chance tinha caído para 28%, e 62% das apostas passaram a mirar a Selic parada em 13,75%, segundo o Termômetro do Copom do Valor Investe. O motivo é o dólar. A PTAX, a cotação oficial do Banco Central, foi de R$ 5,04 na sexta para R$ 5,33 na terça, e câmbio mais caro aparece no preço de importados e combustível alguns meses depois. O BC vinha cortando desde março, sempre de 0,25 em 0,25, e trouxe a taxa de 15% para os 13,75% de hoje.
O pano de fundo é fiscal. A Moody’s manteve a nota do Brasil em Ba1, um degrau abaixo do grau de investimento, mas avisou que espera juro alto por mais tempo enquanto não aparecer um plano crível para as contas públicas, segundo o Money Times. Pelas contas da agência, a dívida do governo saiu de 72% do PIB em 2022 para perto de 83% agora. O economista Samuel Pessôa, do FGV Ibre, disse ao InfoMoney que espera a Selic parada nas duas próximas reuniões, e a gestora ASA ainda conta com um último corte, para 13,5%. Com o IPCA de 12 meses em 4,58%, o juro real, aquele que sobra depois de descontar a inflação, fica perto de 8,8% ao ano.
No seu bolso: com o CDI em 13,65% ao ano, R$ 300 mil no Tesouro Selic ou num CDB de 100% do CDI rendem perto de R$ 3.200 por mês, antes do imposto. Um corte de 0,25 ponto tiraria uns R$ 55 desse valor, o que parece troco até você lembrar que a taxa parada por um ano inteiro soma R$ 750 a mais. A reserva de emergência ganhou com a semana sem que você precisasse encostar nela. Para o dinheiro de longo prazo, a conversa é outra: juro real perto de 8,8% ao ano é um nível que o Brasil raramente oferece, e a pergunta que vale fazer é quanto desse dinheiro deveria estar protegido da inflação, com prazo que case com o seu plano.
A dona do Claude pediu para estrear na Nasdaq
A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial que criou o assistente Claude, protocolou na segunda (26) o pedido de abertura de capital na SEC, a xerife do mercado americano, equivalente à nossa CVM, segundo a CNN Brasil. As ações devem ser negociadas na Nasdaq com o código ANT. O documento mostra receita de US$ 16,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, contra US$ 1,2 bilhão no mesmo período de 2025, e prejuízo de US$ 80,7 bilhões. Segundo a Reuters, uns US$ 72 bilhões desse prejuízo vêm de um ajuste contábil em instrumentos de financiamento, sem saída de dinheiro do caixa. Preço e quantidade de ações ainda não foram definidos.
O the news e o TechDrops falam numa oferta acima de US$ 100 bilhões, com a empresa avaliada entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões. Se o número se confirmar, seria o maior IPO da história, acima dos US$ 75 bilhões que a SpaceX levantou neste ano. A estreia é esperada para novembro. O mesmo prospecto mostra o tamanho da conta: quase US$ 9 bilhões em computação e infraestrutura só no semestre, mais da metade da receita, e US$ 417 bilhões em contratos já assumidos com fornecedores como data centers, segundo o Morning Brew. São 94 páginas só de fatores de risco, um recado que vale ler antes de se empolgar.
No seu bolso: IPO famoso desperta aquela vontade de não ficar de fora, e o primeiro dia de negociação costuma ser o mais caro para entrar. Antes de procurar a ação, abra o extrato. Quem tem um fundo ou ETF de bolsa americana já carrega um pedaço das empresas que vendem chips e nuvem para essa corrida, Nvidia e Microsoft entre elas. Numa carteira de R$ 500 mil, separar 5% para uma aposta individual quer dizer arriscar R$ 25 mil, uma perda que dói sem desmontar o plano. Colocar R$ 150 mil numa ação só porque ela está na capa de todo jornal já pede outra conversa, de preferência antes do pregão de estreia.
A escala 6×1 acaba em 15 de dezembro, e a conta chega à folha da clínica
A Emenda Constitucional 141, promulgada em 16 de outubro, troca a escala 6×1 pela 5×2 e garante duas folgas por semana sem redução de salário. Sessenta dias depois, em 15 de dezembro segundo a Agência Senado, a jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais, e um ano mais tarde vai a 40. As regras de controle de jornada não valem para quem tem diploma superior e ganha pelo menos 2,5 vezes o teto do INSS, e uma lei complementar ainda pode criar uma adaptação para micro e pequenas empresas. A CDL de Belo Horizonte já pediu para empurrar a mudança para janeiro, com medo do efeito no comércio de Natal.
A G4 Business Review propôs nesta semana um teste de estresse para empresas que serve bem para consultório e clínica. Some quatro choques ao mesmo tempo: receita 10% menor, Selic a 15%, dólar 15% acima do que você pagava e hora trabalhada 4,8% mais cara por causa das 42 horas. Depois divida o caixa disponível pelo que a operação queimaria por mês. Menos de seis meses de fôlego acende a luz vermelha. O número de 15 meses que a G4 usa como meta tem história: na crise de 2015 e 2016, a Selic ficou em 14,25% por cerca de 15 meses antes do primeiro corte.
No seu bolso: pense numa clínica com cinco funcionários e folha de R$ 40 mil por mês. Para manter a mesma cobertura de horário com 42 horas por pessoa, cada hora trabalhada fica uns 4,8% mais cara, o que dá perto de R$ 1.900 por mês, ou R$ 23 mil por ano, antes dos encargos. Dá para absorver, desde que a revisão de escala, de horário de atendimento e do preço da consulta aconteça ainda em novembro. E o caixa da clínica precisa morar separado da reserva da família, porque é no aperto que um costuma pagar a conta do outro.
A Vivo pôs o celular para conversar direto com satélite
Desde segunda (26), aparelhos compatíveis de cerca de 50 milhões de clientes da Vivo se conectam sozinhos aos satélites da Starlink, a empresa de internet de Elon Musk, quando saem da área coberta pela rede terrestre, segundo o NeoFeed. A tecnologia, chamada direct-to-device, liga o celular direto ao satélite, sem antena no chão. Segundo a Vivo, todas as operadoras somadas cobrem só 21% do território brasileiro com rede móvel, e com o satélite a cobertura a céu aberto chega ao país inteiro.
O serviço sai de graça por 12 meses para pessoa física e por três meses para empresas. Dá conta de mensagens, ligações e áudios de WhatsApp, mapas e do app da operadora, precisa de céu visível e não aguenta videochamada. O acordo não tem exclusividade, então outras operadoras podem fechar algo parecido. Para quem atende no interior, pega estrada para fazer plantão ou tem família num sítio sem sinal, vira uma ferramenta de segurança que até a semana passada não existia.
No seu bolso: grátis por 12 meses quer dizer um lembrete na agenda para outubro de 2027, porque a Vivo ainda não disse quanto vai cobrar depois. Aproveite e olhe o resto da fatura do cartão. Quem paga R$ 400 por mês em aplicativos, streamings e serviços que quase não usa gasta R$ 4.800 por ano, e esse dinheiro, aplicado no pós-fixado com o CDI de hoje, passaria de R$ 33 mil em cinco anos, antes do imposto.
Comece o planejamento de 2027 ainda em 2026
Juros que param de cair, uma folha que fica mais cara em dezembro e um mercado que muda de humor em dois pregões têm uma coisa em comum: pegam desprevenido quem deixa para pensar no ano novo em janeiro. O artigo Planejamento financeiro para 2027: comece agora, ainda em 2026, aqui do blog, propõe três perguntas para começar (quais objetivos têm data e valor, que despesas vão apertar o caixa em 2027 e quanto do patrimônio precisa ficar disponível) e um roteiro de cinco passos, que vai de juntar extratos, contratos e apólices até combinar quem revisa o quê e quando. Cabe numa tarde de domingo.
Uma conversa sem comissão no meio
Semana de mercado nervoso costuma trazer aquela ligação oferecendo “a oportunidade da queda”. A HealthMoney trabalha como consultoria fee-only: você paga pela orientação, e ninguém aqui recebe comissão sobre o produto que você compra ou vende. O atendimento é feito por profissionais certificados CFP® e CFA, e a pergunta que a gente mais faz continua sendo a menos glamourosa de todas: para quando você vai precisar desse dinheiro?
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Aviso legal: este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação de compra ou venda de ativos. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.