Na sexta (30), o Ibovespa fechou em queda de 0,75%, aos 167,9 mil pontos, o quinto recuo seguido, e encerrou a pior semana desde março de 2020, com perda de 18,12%, segundo o InfoMoney. O dólar chegou a R$ 5,44, a maior cotação de fechamento do ano, e outubro terminou com a bolsa 9,88% mais baixa. Ontem a B3 ficou fechada por causa do feriado de Finados, então hoje é o primeiro pregão para digerir tudo isso. Eu não vou tentar adivinhar o que vem agora. Prefiro olhar o que esses números mudam na conta de quem investe e de quem tem empresa.
Nesta edição, quatro assuntos que mexem com o patrimônio e com o orçamento de quem trabalha muito e tem pouco tempo para acompanhar o noticiário.
A bolsa teve a pior semana desde 2020, e a conta da recuperação é maior do que a da queda
O Ibovespa saiu de 186.340 pontos no fim de setembro, passou de 209 mil em outubro e fechou o mês em 167,9 mil, perto de 20% abaixo da máxima. Só na semana passada foram 18,12% de queda, a maior desde os 18,88% de março de 2020. As small caps, as ações das empresas menores, perderam 32,79% na semana, e os fundos imobiliários, 8,62%. O dólar subiu 9,15% no período, e os juros futuros voltaram a subir em toda a curva, o que quer dizer que o mercado passou a embutir uma Selic mais alta nos próximos anos. Os analistas ouvidos pelo InfoMoney apontam a preocupação com as contas públicas e o cenário lá fora.
O Copom decide a Selic amanhã, quarta (4), às 18h30. A taxa está em 13,75% ao ano, e a Análise Econômica, citada pela Times Brasil, projeta um corte de 0,25 ponto, para 13,50%, mesmo com o petróleo Brent acima de US$ 110 e os preços ao produtor de bens industrializados subindo 5,5% em 12 meses. O desemprego de 5,2% no trimestre até setembro, o menor da série do IBGE, puxa para o outro lado. Os estrategistas do Bradesco BBI dizem que as ações ficaram mais baratas, mas avisam que juros altos e cortes de lucro ainda podem pesar.
No seu bolso: quem tinha R$ 100 mil num fundo que acompanha o Ibovespa e sentiu a queda inteira da semana passada ficou com R$ 81.880. Para voltar aos R$ 100 mil, esse fundo precisa subir 22%, porque a recuperação parte de uma base menor, e é por isso que vender no fundo do poço transforma um prejuízo de papel num prejuízo de verdade. Reserva de emergência e despesas dos próximos dois anos não pertencem à bolsa, qualquer que seja o humor do pregão. O que sobra precisa de um plano escrito antes do susto.
A Chilli Beans entrou na lista das recuperações do ano, e a negociação ficou entre a empresa e os bancos
A Chilli Beans, rede de óculos escuros com cerca de 900 franquias no Brasil e presença em mais de 14 países, protocolou na sexta (30) um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 340 milhões em dívidas financeiras. Nesse formato a empresa conversa antes com os credores, e a Justiça entra no fim para homologar o acordo, por isso o caminho costuma ser mais rápido do que o da recuperação judicial. O plano prevê até R$ 50 milhões em dinheiro novo, aportado pelos próprios credores, com Itaú, Akron e Vega como financiadores âncora, segundo a Times Brasil.
A renegociação cobre só as dívidas com bancos e investidores, e fornecedores e funcionários não entram no plano. O estopim, segundo o the news, veio no fim de setembro, quando a Vert Securitizadora declarou o vencimento antecipado de uma dívida de R$ 89 milhões que só venceria em janeiro de 2029, depois de a controladora deixar de pagar as parcelas de julho e agosto, somando R$ 16,5 milhões. A rede se junta a Ri Happy, Tok&Stok e Casas Bahia, que também recorreram a algum tipo de recuperação neste ano. O fundador, Caito Maia, atribuiu parte do aperto ao cenário do varejo brasileiro.
No seu bolso: se você vende para empresas grandes, olhe quanto do seu faturamento depende de um cliente só, porque quem fica fora do plano de recuperação depende do caixa do devedor para receber. Para quem investe, vale lembrar que o CDB de banco tem a garantia do FGC até R$ 250 mil por CPF e por instituição, e debênture e CRI não têm essa proteção. R$ 200 mil num único emissor de crédito privado, sem esse seguro, merecem um segundo par de olhos antes de a notícia sair.
O imposto mínimo de quem ganha acima de R$ 600 mil entra na conta de 2026
A Lei 15.270/2025 criou o Imposto de Renda da Pessoa Física Mínimo, o IRPFM, que vale para os rendimentos de 2026 e aparece na declaração de 2027. Quem recebe mais de R$ 600 mil por ano entra no cálculo, que soma salário, pró-labore, aluguel e também lucros e dividendos que a tabela comum deixa isentos. Entre R$ 600 mil e R$ 1,2 milhão, a alíquota mínima sobe de 0% a 10% de forma gradual. Com R$ 900 mil na base, por exemplo, ela é de 5%, o que dá R$ 45 mil antes dos abatimentos, e o imposto que você já pagou durante o ano reduz esse saldo.
Existe uma segunda regra, em vigor desde janeiro: quando uma mesma empresa paga mais de R$ 50 mil em lucros ou dividendos à mesma pessoa física no mês, ela retém 10% sobre o valor inteiro, incluindo os primeiros R$ 50 mil. Essa retenção entra no ajuste anual. A lei prevê um redutor para quem já paga muito imposto pela empresa, mas o cálculo depende das demonstrações financeiras de cada caso, e a lei está sendo questionada no STF, o que não dá base para planejar contando com uma mudança. O resumo do Perguntas e Respostas da Receita, feito pelo escritório Demarest, ajuda a entender a retenção na fonte.
No seu bolso: imagine um profissional liberal com PJ que retira R$ 60 mil de dividendos num mês: a empresa retém R$ 6 mil na fonte. Se o ano fechar com R$ 900 mil de rendimentos, o piso do IRPFM é de R$ 45 mil, e o que já foi pago e retido entra no abatimento. Uma distribuição extra em dezembro pode empurrar a alíquota mínima para cima, então vale pedir ao contador uma simulação com os números reais da sua PJ ainda em novembro, quando ainda sobra espaço para decidir o que distribuir.
Wall Street caiu com a conta da inteligência artificial, e o dólar alto fez o BDR subir na semana
Na sexta (30), as bolsas de Nova York fecharam em queda ampla: Nasdaq -2,86%, S&P 500 -1,76% e Dow Jones -1,05%. O motivo foram os balanços da Amazon e da Intel, que reforçaram o medo de que o dinheiro gasto em inteligência artificial demore a dar retorno. Operadores do JPMorgan avaliaram, em nota citada pelo InfoMoney, que a rotação de ações deve continuar. Em outubro, a Nasdaq acumulou queda de 5,30%, e as ações chinesas tiveram a maior queda mensal desde 2016 com a venda de empresas do setor.
Quem olha só o gráfico de Nova York perde metade da história. Na mesma semana em que o S&P 500 recuou 0,57% e a Nasdaq 2,00%, o índice de BDRs da B3, que reúne recibos de ações estrangeiras negociados em reais, subiu 7,29%. A conta fecha por causa do dólar, que avançou 9,15% no período, e em outubro o índice de BDRs subiu 0,93% enquanto o Ibovespa perdeu 9,88%.
No seu bolso: numa carteira de R$ 500 mil com R$ 100 mil em ativos dolarizados, só o efeito do câmbio somou perto de R$ 9 mil na semana, antes de contar o que as ações em si fizeram, e isso amorteceu a queda da parte brasileira. É a diversificação funcionando, num retrato de um momento específico: com o dólar a R$ 5,44, no maior fechamento do ano, quem aumenta a exposição lá fora agora compra caro. A pergunta útil é qual objetivo pede moeda forte, como a faculdade de um filho no exterior, e quanto dele já está coberto.
Investir depois de uma semana dessas sem obedecer à manchete
Queda forte, empresa em recuperação, imposto novo e bolsa lá fora oscilando têm uma coisa em comum: pedem uma decisão tomada com calma, e manchete raramente ajuda nisso. O artigo Investimentos em ano eleitoral: como se preparar para 2027 sem agir por manchetes, aqui do blog, propõe três revisões, que são prazo e liquidez de cada recurso, risco da carteira como um todo e custo e motivo de cada posição, além de um roteiro de seis passos que inclui comparar qualquer mudança com a alternativa de não mexer agora. Dá para fazer com um café e os extratos abertos.
Uma conversa sem comissão no meio
Depois de uma queda dessas, costumam aparecer duas ligações: uma oferecendo “a oportunidade da liquidação” e outra sugerindo vender tudo hoje. A HealthMoney trabalha como consultoria fee-only: você paga pela orientação, e ninguém aqui recebe comissão sobre o produto que você compra ou vende. O atendimento é feito por profissionais certificados CFP® e CFA, e a conversa começa pela pergunta menos empolgante e mais útil: quando você vai precisar desse dinheiro?
Se você quer saber quanto da sua carteira está concentrado, o que a sua PJ vai enfrentar com o IRPFM e se o seu plano aguenta mais uma semana como essa, faça o Diagnóstico Financeiro gratuito.
Aviso legal: este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação de compra ou venda de ativos. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. As simulações de imposto são exemplos numéricos e não substituem a orientação de um contador.